LONG PLAYS #08
"Gruda na memória como o sorriso doce da sua garota" ou como o pop mais uma vez salvou a minha vida.
SOUNDTRACKS
“Double Joe”, Bright Eyes
Era março e tudo o que eu queria era pedir demissão. Mas tomar uma decisão dessas nunca é fácil. Até porque meu emprego estava longe de ser ruim. Só que eu precisava decidir logo ou a minha saúde mental iria decidir por mim. Foi então que a Giovana viajou por duas semanas e eu fiquei sozinho em casa. E entrei em uma espécie de maratona pop para tentar encontrar alguma luz, algum sinal, alguma resposta.
Decidi começar pelos filmes. Aluguei na Apple TV “Laços de Ternura”. Por que, você deve estar se perguntando, decidi sofrer com essa história tão triste? Não sei dizer exatamente. Talvez porque eu goste muito da Debra Winger e quis evitar “A Força do Destino” (se bem que alguns dias depois assisti também a “Perigosamente Juntos”). Ou porque “Laços de Ternura” foi o primeiro filme que aluguei na videolocadora lá nos anos 80 e quis sentir essa nostalgia de descobrir algo novo. Aquele pensamento de “caralho, posso alugar e ver o que eu quiser na minha própria casa” antes da chegada do streaming. Enfim, a verdade é que de repente me vi chorando de novo com a cena onde a Debra Winger se despede dos filhos e lembrei da minha mãe, de segundas chances, de James L. Brooks além dos Simpsons. Nessa minha lógica muito particular, “Laços de Ternura” estava me dizendo para tomar coragem de uma vez por todas.
Também revi “Goonies” pela trigésima vez. “Goonies” é muito especial por causa do Ke Huy Quan. Todo mundo voltou a falar dele depois de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” e realmente é muito bonita a história do seu retorno ao cinema. É uma redenção ver ele ganhando tantos prêmios. A questão é que o Ke Huy Quan foi muito importante para mim porque ver ele no cinema em “Goonies” foi a primeira vez que também me vi em um filme. Tudo bem que o personagem dele tem o estereótipo do asiático geniozinho, mas ele era um cara como eu em uma produção do Steven Spielberg - era um sentimento de inclusão quando eu nem sabia o que era isso. O fato é que, depois de chorar com a Debra Winger, eu estava lá me divertindo com o Ke Huy Quan. E me dei conta que o que estava faltando na minha vida profissional era exatamente isso. Um pouco de diversão, por favor.
(Outro filme que entrou na minha sessão particular de vale a pena ver de novo foi “Totalmente Selvagem”. Mas confesso que foi apenas por causa da Lulu da Melanie Griffith e dos Feelies tocando David Bowie.)
Então eu comecei a procurar respostas na música. Mas dessa vez não tive tempo para ser nostálgico. Descobri “Double Joe” no disco novo do Bright Eyes e foi como se eu fosse sugado para uma realidade paralela onde só essa canção existia. É rock, é punk, é pop, é triste, é feliz, é melancolia. E tem essa guitarra slide que parece chorar baixinho durante toda a música. E versos como “the light is green, but it should not moving, it’s a stoplight afterall”, “pretend the drumbeat is your heart” e “home is where you hang out, not where you hang yourself” que começaram a ter outro sentido para mim. Fiquei dias e dias só ouvindo “Double Joe”, buscando versões ao vivo no YouTube até que a sua bateria e meus batimentos cardíacos finalmente eram um só.
“He ain’t afraid of his cymbals”.
É isso, pensei. A internet diz que a letra é sobre um baterista conhecido na cena alternativa de Omaha. E um baterista não tem que ter que medo dos pratos. Sim, é isso. Jamais toquei bateria na minha vida, mas decidi enfrentar o meu medo e chorei com a Debra Winger e me diverti com o Ke Huy Quan e com o apoio da Giovana, pedi demissão.
OK, talvez eu tenha simplicado e romantizado demais as coisas. Sempre faço isso. Mas ver a vida através do meu filtro pop nunca me deixou na mão. Nunca.
E a vida está provando que eu não estava errado.
Créditos para Simon Joyner
“Double Joe” é de Simon Joyner, músico de Omaha, terra do Bright Eyes. Ainda acho a versão da banda do Conor Oberst melhor que a original. Mas você pode e deve discordar de mim.
No YouTube também tem o Conor Oberst cantando “Double Joe” com a Phoebe Bridgers. É lindo. Até porque qualquer coisa que a Phoebe Bridgers canta fica lindo.
Seja qual for a versão, Simon Joyner escreveu uma música bonita demais. Obrigado, Simon. De coração ❤️
ALL THE BEAUTIFUL THINGS
Uma foto no café Prolog, que fica no meatpacking district em Copenhagen. Uma manhã normal de um verão que mais parece outono 😍 A foto é analógica e usei o filme Kodak Portra 800.
EU QUERO SER AMIGO
… do Damon Albarn. Porque o disco novo do Blur é britpop de adulto. Tão bonito que dói.
Mas o que me fez querer ser ainda mais seu amigo foi ver ele desabar de choro e emoção no Wembley Arena depois de tocar “Under the Westway”.
Aliás, “Under the Westway” é uma das minhas favoritas do Blur. Em 2012 escrevi este textinho.
Por que “Under the Westway” é a melhor música de 2012?
Porque começa com ruídos que, aos poucos, se transformam em uma melodia sem tempo e espaço. Porque é Beatles, é Paul, é Damon, é 60’s, é 90’s, é pop, é rock, é soul, é ballad. Porque o mínimo quase solo de guitarra de Graham depois do primeiro verso é o sentimento da paixão à primeira vista traduzido em música. Porque a gente não sabe exatamente se estamos emocionados pela melancolia, pela beleza ou por tudo isso junto misturado. Porque cai no clichê do crescendo sem cair no clichê do óbvio. Porque não tem refrão e, mesmo assim, gruda na memória como o sorriso doce da sua garota. Porque eu já havia deixado de acreditar em muitas coisas belas, inclusive no próprio Blur. Porque é 100% britânico, como se entre seus silêncios e recomeços se escondesse o sol de dias cinzas. Porque diz and the last post sounds just like a love song for the way I feel about you, um dos versos mais bonitos que Damon escreveu. Porque, acima de tudo, termina com hallelujah. Veja bem: hallelujah.
Todos nós choramos Damon, todos nós.


O pop tbm facilitou meu pedido de demissão da Disney rs
Aguardando a tentativa de ficção!