LONG PLAYS #09
Zooey, Andy & Robbie. E uma pequena e tola love story.
Obrigado por ler a Long Plays. Se você é novo por aqui, comece pela edição #00.
SOUNDTRACKS
“I Know It’s Over” (Live in London, 1996), The Smiths
Eles se conheceram em uma loja de discos no centro da cidade. Um final de tarde de chuva depois de um dia de calor. Só não era perfeito porque, você bem sabe, todas as lojas boas de discos insistem em abrir no centro da cidade. E tem o trânsito. E tem o metrô lotado. E tem esses velhos jovens em busca de um Fitzgerald.
A gente fecha às sete, o dono disse sem tirar os olhos do celular enquanto os dois entravam na loja ao mesmo tempo. Eles sorriram um para o outro. Um pouco por empatia, outro tanto porque não era a primeira vez que se cruzavam em lojas de discos.
Ela foi direto na seção de lançamentos e separou um disco de uma banda que ele nunca ouviu falar. Com cuidado, retirou o vinil da capa. Era colorido. Verde limão. Quando comecei a comprar discos não existia isso de vinis coloridos, ele disse sem acreditar no próprio impulso. Em um dia normal ela ignoraria qualquer tentativa de conversa, mas talvez fosse a chuva ou o sorriso que trocaram na porta da loja. Sim, na nossa época não tinha isso não, ela falou enfatizando o nossa, até gosto dessa banda mas vou te confessar que esse disco é pro meu filho. E o que tu gosta de ouvir?, ele perguntou. Smiths, ela respondeu rindo, eu amo The Smiths.
Outros clientes tentaram entrar na loja e o dono disse que já estava fechando. Ele se distraiu um pouco até que viu seu reflexo na vitrine. E foi então que se deu conta que vestia uma camiseta com a capa de um disco dos Smiths. É impressão minha ou estamos em um diálogo de “500 Days of Summer”?, ele disse tentando ser engraçado, porque não tenho mais vinte e poucos anos pra sofrer feito um condenado, nem mesmo pela Zooey Deschanel. Do que tu tá falando?, ela quis saber. “500 Days of Summer”, o filme, sabe, o cara tá ouvindo Smiths no elevador e a Zooey diz que ama Smiths e o cara se apaixona e ela fode com a vida dele, ele respondeu. Honestamente, nem lembro mais desse filme e, do pouco que lembro, tenho certeza que não foi a Zooey que fodeu com a vida dele, ele que era meio loser, ela falou.
Ele ficou sem o que dizer, ali na seção das letras “R” e “S”. Ela até queria uma resposta, ver até onde ele levaria aquela conversa depois dessas pequenas provocações, mas era aniversário do filho e já era sete em ponto. Pegou o vinil colorido e levou ao caixa. Pensou em reclamar do preço dos discos importados, mas era uma data especial e pagou sem culpa. Antes de ir embora da loja, olhou para trás e sorriu. Decidiu ser simpática caso se encontrassem de novo em outra loja de discos no centro da cidade.
Ela caminhou até o metrô, tentando se esquivar da chuva entre as marquises dos prédios e as lonas dos bares. De repente, ouviu alguém gritar Zooey. Era ele, que caminhava com passos rápidos carregando um vinil embaixo do braço. Toma, ele disse, não é colorido mas é um dos melhores discos ao vivo da história, é um presente pro seu filho. Era o álbum “Rank” do The Smiths. Pra que isso?, ela perguntou. Eu posso estar velho pra comédias românticas, ele respondeu, mas o teu filho não.
Quem era ele para falar sobre o meu filho?, ela pensou. Mas era impossível não sentir uma pequena ternura por aquele gesto coreografado e cinematograficamente brega. Olhou para o relógio. Olha, eu ainda tenho tempo para um Fitzgerald, conheço um bar bem legal aqui pertinho, ela convidou. Ele concordou balançando a cabeça, apesar de preferir um Macunaíma. Desculpa se te chamei de Zooey, ele disse. Tudo bem, mas se vamos fazer isso mesmo, tu precisa saber algo de mim, ela falou. O quê?, ele perguntou. Tu precisa saber qual é a minha música favorita dos Smiths, ela respondeu.
E? Qual é?
Agora era a vez dela fazer uma pausa cinematográfica.
“I Know It’s Over”.
Andy Rourke e a linha de baixo mais linda do mundo
A ideia do texto acima surgiu quando eu estava revisando as fotos que fiz na minha viagem pela Escandinávia em julho desse ano.
Obviamente pensei em Patti Smith, mas a capa de “Strangeways Here We Come” do The Smiths me fez lembrar que estava nos meus planos escrever sobre o Andy Rourke que faleceu em maio desse ano. Todo mundo fala de Morrissey e do Johnny Marr, mas a verdade é que os quatro integrantes dos Smiths eram fodas demais. É do Andy Rourke a linha de baixo que mais amo na vida. Justamente de “There Is a Light That Never Goes Out”, a música que dispara o diálogo de “500 Days of Summer”.
Eu não sei você, mas quando canto “There Is a Light That Never Goes Out” na minha cabeça (e, acredite, isso acontece com mais frequência do que gostaria admitir) é a linha de baixo que surge naturalmente e não a letra e a voz do Morrissey. É bonito demais.
Andy Rourke 🙏 💛 🎸
P.S.: Eu realmente acredito que “Rank” é um dos melhores discos ao vivo que já ouvi. E essa versão de “I Know It’s Over” é de chorar no cantinho, no meio, em cima, embaixo, em todas as partes.
ALL THE BEAUTIFUL THINGS
Cinema Grand Stockholm que fica, claro, em Estocolmo. A foto é analógica, usei uma lente 35mm/f2 e o filme Kodak Portra 400.
EU QUERO SER AMIGO
… do Robbie Robertson. Eu poderia dizer que sempre quis ser amigo dele, assim mesmo no passado. Porque Robbie faleceu no dia nove de agosto. Mas não importa. Eu sempre vou querer ser amigo desse cara que era o motor de uma das maiores bandas da história. Um talento generoso que escreveu canções lindas demais e não se importava em dar protagonismo aos seus amigos. Afinal, Robbie tinha o luxo de ter ao seu lado Rick Danko, Richard Manuel, Garth Hudson e Levon Helm (meu baterista do coração). The Band era muita genialidade em uma banda só. Mas nunca existiria sem o Robbie.
Sou obcecado pelo álbum/filme “The Last Waltz”. E mais ainda pela versão ao vivo de “It Makes No Difference”. É a minha favorita do Robbie, e acho que ele sabia que a voz do Rick Danko era perfeita para retratar essa letra cheia de corações despedaçados. Mas no finalzinho da música ele faz dois solos de guitarra que, junto com o saxofone do Garth Hudson, representam tudo o que o que rock significa para mim. Amor, melancolia, dor, beleza, desilusão, catarse e, acima de tudo, redenção.
No meu romance “Clube dos Corações Solitários” tem uma parte em que o narrador dança “Out of the Blue” com a sua melhor amiga. É madrugada e ele tinha acabado de sair da casa dos pais e era a primeira noite morando sozinho.
Cinco horas da manhã. Todos foram embora, com exceção de Giovanna, que está estreando a minha cama nova. Acabei de arrumar a sala. Lavei a louça. Limpei os cinzeiros. Não posso me esquecer de comprar uma lixeira. Esquento uma xícara de água no microondas e faço um cappuccino daqueles em pó. Sento na sala, apenas a luz das estrelas iluminando as minhas poucas coisas. O sorriso da Winona Ryder. No som, “Out of the Blue”, uma velha canção da The Band, aquela banda que acompanhava o Bob Dylan em sua fase elétrica. De repente, Giovanna aparece na sala, os olhos inchados.
- Você quer dançar? - eu pergunto.
Giovanna abre seus braços.
Ela repousa sua cabeça sobre meu peito, eu mexo em seus cabelos. Por alguns segundos, eu tenho uma sensação de ser capaz de fazer tudo por Giovanna. Tudo o que ela quisesse. Tudo para fazê-la feliz.
- Você sabe que pode morar aqui se quiser, não sabe? - eu falo.
Ela me abraça mais forte, acho que quis dizer que sim.
- Sabe o que eu tanto gosto na Winona Ryder? É que ela parece tão normal, tão simples, tem uma beleza quase imperceptível. E, ao mesmo tempo, é tão angelical. A Winona não parece inatingível como as outras estrelas de cinema. Acho que é mais ou menos assim com a vida. Quero dizer, a gente sempre acha que o que nos vai fazer feliz é o inatingível, é o exagero. Mas, são as coisas simples que nos fazem mais felizes, não acha? Não há nada de luxuoso e extraordinário neste apartamento, é alugado, mas é meu. E nós dois estamos um caco, vestindo roupas sujas, fedendo a cerveja e nicotina, mas, sei lá, poucas vezes me senti tão feliz na minha vida.
- É por isso, Spit... - Giovanna sussurra.
Eu pergunto:
- Isso o quê?
Seus braços curtos cruzam o meu corpo magro, os dedos caminhando pela minha camisa suada, ela diz:
- É por isso que a gente não é feliz com alguém. O amor não é nada simples. Pelo contrário, é supercomplicado.
- Que nada, a gente é que complica ele - e nesse exato momento em que digo o clichê número dez, eu me desfaço sobre o corpo de Giovanna e rezo ao Deus em que não acredito, mas que mesmo assim me faz tanta falta nesses dias estranhos.
E “Out of the Blue” é uma das poucas canções da The Band com vocais do próprio Robbie Robertson. Obrigado, Robbie. São tanto anos ouvindo suas músicas que acho que já posso dizer que somos amigos 💛
BONUS TRACK
A banda australiana Middle Kids e o refrão mais buena onda do ano. Uma dica de música nova porque essa edição estava muito adeus aos meus ídolos que se foram.



cada vez mais legal a newsletter, já fico feliz quando ela chega. adorei a ficção, é a que vc comentou na edição passada? e a foto do cinema! demais